Relato 24 de maio de 2026

Corrida da APAE Brusque 2026: 44:19 nos 10k e o RP que veio sem planilha cirúrgica

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Corrida da APAE Brusque 2026: 44:19 nos 10k e o RP que veio sem planilha cirúrgica
Foto: Equipe oficial da 4ª Corrida APAE Brusque / Pernas Solidárias
Neste post

A planilha pedia 50, o corpo entregou 44

O Samuka montou a planilha em três blocos progressivos, com janela de pace pra cada um:

BlocoDistânciaPace previstoTempo previsto
1km 1 a 35:15 a 5:2015:45 a 16:00
2km 4 a 74:55 a 5:0019:40 a 20:00
3km 8 a 104:45 a 4:5014:15 a 14:30
Total10 km4:59 médio49:40 a 50:30

A meta era trabalhar negative split conservador, segurando o cavalo no início porque eu venho de bloco de volume alto e a APAE entrou no calendário como prova de ritmo, não de pico. Plano coerente com o momento da temporada.

Joguei a planilha fora no km 1.

Não foi decisão consciente. Larguei na cadência que o corpo pediu, achei que estava em 5:10, olhei o relógio no fim do primeiro quilômetro e vi 4:55. Era pra ser o pace do bloco 2 já no quilômetro de aquecimento. Em vez de freiar, segui no que dava. No km 2 já estava em 4:20 e dali pra frente foi sempre sub-5.

Vaporfly Next% 2: o que ia ser aposentado virou estrela

A história do tênis vale uma seção inteira porque ela é meio absurda.

Comprei o Nike Vaporfly Next% 2 há três anos. Rodou só 200 km e ficou guardado. Aquele tênis que você compra empolgado, usa em dois ou três treinos, percebe que é pra prova de verdade e arquiva esperando o dia. O dia não chegava. O carbono envelhecendo dentro da caixa.

Quando peguei ele esta semana pra preparar a APAE, vi o problema: a entressola está descolando numa região da parte de baixo. O solado em si está praticamente intacto pelo pouco uso, mas a cola da espuma cedeu com o tempo de prateleira.

Foi a primeira vez competindo nele. Pensei em deixar pro próximo treino “pra ver se aguentava” e largar de Vomero Plus na APAE, como já fiz nas outras provas. Decidi pelo Vaporfly por dois motivos:

  1. Brusque é plana e seca. 10 m de ganho total de elevação na prova inteira. Se o tênis ia falhar, falharia num cenário menos hostil que uma meia com chuva.
  2. Se ele não rendesse hoje, ia direto pra oficina sem testar. O ponto era ver se o carbono ainda entregava antes de gastar dinheiro consertando a entressola.

Entregou. 44:19 com placa de carbono debaixo do pé responde a pergunta: vou consertar e dar mais milhagem nele. O carbono envelhecido ainda mola.

Ronaldo correndo em direção à câmera com camisa roxa, óculos escuros, GoPro no peito e Vaporfly Next% 2 laranja, com ponte estaiada e estrutura de cabos ao fundo
Vaporfly Next% 2 laranja, três anos guardado, descolando na entressola, e ainda assim 4:26 de pace médio. Foto: equipe oficial da prova.

Largada às 7h: 14°C, sol baixo, Vale do Itajaí acordando

Largada às 07h em ponto no Centro de Brusque, 14°C, céu limpo. Vale do Itajaí em maio entrega esse tipo de manhã: friozinho que vai embora rápido com o sol subindo. Foi a primeira prova do ano em que eu não larguei encharcado.

Sem chuva, sem vento, percurso quase plano. Praticamente todas as condições viraram a favor. A única variável era eu.

Brusque pra mim é prova de casa. A APAE entrou no calendário como tijolo da série mãe “Dos 160kg ao SUB 3”, sem vínculo com mandala formal. Eu tinha gravado o vídeo de prévia tratando ela como teste de ritmo. O que eu não tinha feito ainda era transmitir uma prova do início ao fim ao vivo. Essa foi a primeira.

Transmissão ao vivo: a primeira prova inteira em IRL

Foi a primeira prova que transmiti do início ao fim, ao vivo, sem corte. Outras corridas viraram vlog editado depois. Essa foi do aquecimento à medalha, em tempo real, na transmissão completa do canal.

Quem acompanhou viu, sobreposto na tela: o pace que eu estava fazendo naquele segundo, o pace médio, a distância já corrida, a frequência cardíaca e um mapa desenhando o trajeto enquanto eu rodava. Os números chegam na tela no mesmo instante em que chegam no meu relógio.

Essa é a camada que vlog não entrega. Vlog conta a história que eu quero contar. Stream ao vivo entrega a corrida como ela aconteceu: o 4:20 do km 2 apareceu pro espectador antes de eu sequer narrar que tinha aberto o pace. Quem estava assistindo viu eu jogar a planilha fora em tempo real.

Aguentou as horas inteiras de transmissão sem cair uma vez. Virou padrão pras próximas provas.

Splits km a km

Dados do Garmin (auto laps de 1 km, distância oficial do percurso 9,93 km):

KMPaceFC médiaFC máxCadência
14:55142154166
24:20158162178
34:28160163176
44:23161163178
54:41160163176
64:41161164174
74:33161164178
84:25164168178
94:36163166176
10 (0,93 km)4:58168173178

Três leituras desses números:

A FC subiu em escada, sem disparar. 142 no aquecimento, fechou em 168 no sprint final, máxima de 173. Curva natural de prova bem distribuída. O corpo trabalhou perto da zona limite, não em cima.

O km 2 foi o mais rápido do dia (4:20), não os finais. Isso significa que eu acelerei demais cedo e segurei o resto. Em prova bem corrida o sprint final tinha sido sub-4:20. Tem espaço pra otimizar a curva de pace na próxima.

Cadência média 88 strides/min (176 steps/min). Mantida estável dos primeiros aos últimos quilômetros. Cadência alta é o que segura a forma quando o pace aperta, e a do Vaporfly ajudou a manter o pé ágil mesmo na hora em que a fadiga começava a aparecer.

Plano do Samuka vs real

BlocoPlano (pace)Real (pace médio)Diferença
km 1 a 35:15 a 5:204:3441 a 46 s/km abaixo
km 4 a 74:55 a 5:004:3520 a 25 s/km abaixo
km 8 a 104:45 a 4:504:3411 a 16 s/km abaixo

Os três blocos saíram abaixo do limite mais agressivo da janela. O bloco 1 foi o mais distorcido: era pra ser controlado e saiu 45 segundos por quilômetro mais rápido que o pedido. O bloco 3, que era o mais ambicioso da planilha, saiu praticamente no mesmo pace do bloco 1 (não acelerei, só mantive).

Conversando com o Samuka depois, a leitura é clara: o salto de performance foi maior do que o ciclo de treino sugeria. A planilha foi montada pra um corredor que faz 48:35 nos 10k. Eu apareci na largada já em outro patamar.

9º na M40-44, 52º no geral

O resultado oficial:

MétricaValor
Tempo líquido (chip)00:44:19
Distância oficial10 km
Pace médio4:26 min/km
Colocação geral52º
Colocação M40-44

9º na minha categoria, num 10k aberto, é o melhor posicionamento que eu já tive em prova. Não é pódio, mas é a primeira vez que eu termino uma corrida olhando o resultado e vendo a possibilidade dele aparecer ali na frente nas próximas. M40-44 num 10k local junta gente forte que treina sério, e aparecer no top 10 muda o que dá pra mirar.

O dado do Garmin: ascensão total 10 m, descensão 13 m, 738 kcal queimadas em 45 minutos de relógio. Prova plana de verdade.

Nutrição: simples e funcionou

Pra prova curta a operação foi enxuta.

Manhã antes da prova:

  • Beterraba (suco)
  • Banana com mel
  • Café preto
  • Hidratação base

Durante a prova: só água nos pontos de hidratação. 10k não pede gel.

Ponto de aprendizado da noite anterior, que vou levar pras próximas: dormi mal e atrasei o jantar. Acertar o jantar e a hora de deitar antes de prova curta vale mais do que carb load complicado. Pra 10k, o que move o ponteiro é o sono e a beterraba.

Correr pela APAE: o que sustenta a 4ª edição

A prova se chama 4ª Corrida APAE Brusque / Pernas Solidárias. A APAE (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais) de Brusque atende pessoas com deficiência intelectual e múltipla na cidade, e a corrida é uma das captações principais que sustenta o trabalho ao longo do ano.

A organização cresce a cada edição. 1.346 dorsais no meu lote, percurso bem sinalizado, hidratação no ponto, largada pontual. Pra prova local que existe pela causa antes de existir pelo cronograma esportivo, a entrega foi profissional do começo ao fim. Vale a inscrição mesmo quem só está usando como rodagem entre provas maiores.

Próxima: Night Run Aeroporto Floripa, 20/06

Próximo tijolo do calendário é a Night Run do Aeroporto de Florianópolis, 20 de junho. Falo dela em vídeo e em post próprio.

O que fica da APAE pro que vem pela frente: o RP de 10k caiu pra 44:19, o Vaporfly Next% 2 vai pra oficina e volta pra rodagem, e a planilha do Samuka pra Florianópolis vai ser refeita em cima de outra base. A linha de partida da próxima começa em 4:26 de pace médio, não mais em 4:51.

Se você correu a APAE Brusque esse ano, conta nos comentários como foi o seu dia. E se você ficou na dúvida sobre tirar o tênis de carbono da caixa por medo de gastar a sola: tira. O carbono não te espera. Tem prova hoje.

Fontes

Imagens:

  • Hero (curva da ponte estaiada de Brusque): equipe oficial da 4ª Corrida APAE Brusque / Pernas Solidárias
  • Foto frontal na ponte: equipe oficial da 4ª Corrida APAE Brusque / Pernas Solidárias

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